FERMENTO: DO AR AO SEU REDOR

Minha querida,

Creio que posso chamá-la assim, após esse período de convivência em que ganhamos a
confiança mútua e passamos a nos conhecer.

Nesses tempos velozes de internet, achei interessante lhe escrever. Penso que o
tempo da carta postada é adequado ao desenvolvimento do fermento. Um tempo
perdido, poético, nostálgico, que você não viveu, mas que sua ação propõe resgatar.

Você estabelece um compromisso anacrônico com o ritmo e o sentido da produção do
alimento na sociedade industrializada, do “fast food”. Assim, segue um fluxo contrário
ao das relações adequadas à economia de hoje, na qual resta às pessoas, cujo tempo já
foi consumido, engolir o alimento “ready-made”.

Ao redor da ideia de fermento, diversas partes chamadas mudas ou iscas se
transformam ao longo de períodos (tempos) diferentes, assimilando peculiaridades
dos locais escolhidos. Espaços de acolhimento, comunidades nas quais você se insere,
se integra, ensina e aprende, cria relações afetivas, transforma e aceita ser também
transformada. Como a massa aparentemente inerte, porém viva que você propõe e
cultiva. Essa produção ao mesmo tempo subversiva e terna do alimento tornado
agente agregador, permite o ressurgimento das pequenas histórias perdidas, das
relações e afetos envolvidos nas atividades coletivas e suprimidas na sociedade
individualizada e de consumo. Assim você provoca a reflexão sobre o próprio tempo
do homem e sua relação com sua vida.

Nessa demanda que você detectou, o fermento funciona então como o elemento
transformador de que falava Heráclito, circulando como uma espécie de vírus do bem,
inserido nos tecidos e redes sociais de modo ativo, atuante, resgatando a história da
nossa própria cultura. O resultado está inscrito no produto final. O pão traz as marcas
particulares dos indivíduos, de cada comunidade, de seus ares e de suas histórias.
Porém, essas marcas são quase invisíveis, imperceptíveis, como a cultura do próprio
homem contida no pão que, convertido em um veículo de atividade estética integrada
aos sistemas de referências cotidianas, segue ativando espaços e fluindo sem centro
por entre mãos transformadas e transformadoras.

Meus Parabéns

Carlos

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Foto: Arquivo GHM

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Foto: Arquivo GHM

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Foto: Arquivo GHM

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Foto: Arquivo GHM

 

 

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