Caminhos Possíveis – Rafael Segatto

O Abridor de Caminhos

Esta primeira mostra individual que o jovem fotógrafo Rafael Segatto (1992) inaugura na Galeria Homero Massena é resultante da pesquisa reflexiva e prática que ele desenvolveu ao longo do corrente ano, com o prêmio conquistado no Edital nº 15 da Secretaria de Estado da Cultura, na categoria Projetos de Exposições de Artes Visuais (2017). O título caminhos possíveis é tão instigante quanto sugestivo. Aponta para questões que, embora pareçam opostas, na verdade se entrecruzam: objetividade e subjetividade, razão e sentimento, realidade e imaginação, possibilidade e imprevisibilidade, certeza e dúvida, decisão e acaso. Aproxima o pensamento e o campo da arte, pois qualquer processo de criação remete à ideia de percurso, abertura e descoberta de novos caminhos. O ato criador, portanto, demove o artista de sua zona de conforto ou de segurança, da rotina e das normas que lhe são impostas pelo sistema hegemônico.

A vontade ou necessidade de desvelar novos caminhos levou Rafael Segatto à condição de exilado – mesmo que em mobilidade espontânea – em Belém do Pará. Lá ele mergulhou em uma realidade que lhe era até então distante e desconhecida. Durante a residência artística, realizada na Associação Fotoativa, tendo sido contemplado posteriormente com a bolsa do prêmio do Fundo de Cultura do Estado do Espírito Santo, o jovem se deparou, inicialmente, com o estado de abandono, degradação das construções históricas, caos urbano e conflitos sociais, que lhe sugeriram a realidade de tantas outras cidades brasileiras. Mas lhe causaram mais impacto a grandiosidade dos rios, as cores e a exuberância da luz e da vegetação local, por atuarem como forças desmobilizadoras de conceitos, hábitos e visões preconcebidos.

Partindo do registro fotográfico de imagens capturadas durante essa experiência imersiva na Amazônia, mas também recorrendo a leituras, reflexões e trocas, o artista articulou a tessitura criativa de caminhos possíveis. Trata-se de uma instalação que perpassa diferentes dimensões que se complementam – ela reflete sobre a vida, a construção de afeto e de alteridade; mas também aponta para a circularidade do tempo. No entanto, não é ao tempo linear e cronológico posto pela ocidentalização do mundo que se refere o artista. Ele fala de um tempo biológico ou corporal, guindado pelo aqui e agora, ou seja, pelos fenômenos da natureza, como ocorreu com nossos ancestrais. É este tempo que continua orientando a vida cotidiana de muitas comunidades que dependem da pesca ou da agricultura para sobreviver: fases da lua, posição das estrelas, movimento das marés, direção dos ventos, períodos de chuva ou de seca, dia e noite…

caminhos possíveis compõe-se de um conjunto de fotografias digitais impressas com pigmento mineral, sobre grandes suportes de papel fotográfico: um tríptico, denominado A Queda do Céu, e o políptico em forma de cruz, abridor de caminhos e a suspensão do tempo, além de mudas de aroeira plantadas em vasos, posicionados nos cantos da galeria. Os trabalhos fazem referência à ruptura com o tempo cronológico e à energia cíclica, que rege a natureza e as travessias da vida. Fazem menção, ainda, à figura de Exu, orixá cultuado pelas religiões de matriz africana e responsável, segundo Segatto, “por conectar o mundo material ao mundo espiritual, além de ser considerado o guardião dos caminhos”.

Para teóricos como Philippe Dubois, uma imagem digital não se caracteriza mais como potência “indicial” ou “rastro”, uma vez que, diferentemente da fotografia analógica, não resulta, necessariamente, de algo que se colocou diante da objetiva em um dado momento. As câmeras digitais, smartphones e celulares tornaram as imagens pura ficção ou invenção. Resultam de programas, que permitem muito pouca interferência e mediação do sujeito que manipula o aparelho, e que permitem incluir nelas coisas e lugares nos quais nunca estivemos. Além disso, a imagética gerada por tais aparelhos não se destina mais a circular impressa em papel, para rememorar e perpetuar a memória de alguém querido ou um acontecimento que não queremos esquecer. As fotografias digitais são imagens efêmeras, nascem para circular no fluxo das redes sociais e para serem armazenadas na memória da câmera ou do computador por curto tempo, pois logo serão substituídas por novas imagens. Mas não é nessa esteira que transitam as fotografias sobre a pesca produzidas por Rafael Segatto, que subvertem ou põem em xeque tais prognósticos e preceitos teóricos. Até porque o artista continua se deslocando com a câmera, para flagrar aspectos do mundo que lhe interessam e com os quais interage. Também não se pode ignorar que tais imagens acabam se submetendo a determinadas trucagens ou interferências feitas no ato de edição, que passam pela saturação da cor, alteração de enquadramentos ou cortes.

O artista submete, assim, tal imagética a seu olhar sensível, elegendo a iconografia que melhor se ajusta ao conceito por ele formulado e ao contexto em que visa inseri-la, o que permite identificar o seu propósito de dialogar com a pintura. Isso se desvela na potência e intensidade luminosa do azul, geradas pela impressão das fotografias mediante a utilização de pigmento mineral. Essa cor reverbera por todo o espaço, tornando rio e céu um todo inseparável. O azul é atravessado apenas por uma forma pontiaguda vermelha, que corta o espaço como um raio, como se o artista pintasse com a luz. A essas características soma-se o resultado da decisão de ampliar e imprimir as fotos em dimensões que lembram as das telas pictóricas. Mas é ao dispor as imagens em forma de cruz que o artista destaca a encruzilhada desses dois caminhos, inserindo ali uma composição que se diferencia das demais pela cor e pelos elementos nela expressos: um conjunto de peixes, que sugere uma natureza morta. Isso torna a imagem o ponto focal, ao fazer convergir para ela o olhar do espectador, como no punctum de Roland Barthes. Mas essa composição não deixa de traduzir a ideia de oferenda a Exu, “senhor da fertilidade e do dinamismo, o criador do mundo e dos homens, o guardião da ordem e da desordem” (Vagner da Silva, 2013). A referência a Exu também é expressa pelos vasos de aroeira, planta que tem o poder de limpar e proteger o espaço expositivo e o caminho de quem por ele transita. Na tessitura de caminhos possíveis enredam-se, portanto, experiências, vivências, pensamentos e memórias afetivas e culturais do autor.                                                                                                                                                                               

Almerinda Lopes

Anúncios

Caminhos Possíveis – Rafael Segatto

O Abridor de Caminhos

Esta primeira mostra individual que o jovem fotógrafo Rafael Segatto (1992) inaugura na Galeria Homero Massena é resultante da pesquisa reflexiva e prática que ele desenvolveu ao longo do corrente ano, com o prêmio conquistado no Edital nº 15 da Secretaria de Estado da Cultura, na categoria Projetos de Exposições de Artes Visuais (2017). O título caminhos possíveis é tão instigante quanto sugestivo. Aponta para questões que, embora pareçam opostas, na verdade se entrecruzam: objetividade e subjetividade, razão e sentimento, realidade e imaginação, possibilidade e imprevisibilidade, certeza e dúvida, decisão e acaso. Aproxima o pensamento e o campo da arte, pois qualquer processo de criação remete à ideia de percurso, abertura e descoberta de novos caminhos. O ato criador, portanto, demove o artista de sua zona de conforto ou de segurança, da rotina e das normas que lhe são impostas pelo sistema hegemônico.

A vontade ou necessidade de desvelar novos caminhos levou Rafael Segatto à condição de exilado – mesmo que em mobilidade espontânea – em Belém do Pará. Lá ele mergulhou em uma realidade que lhe era até então distante e desconhecida. Durante a residência artística, realizada na Associação Fotoativa, tendo sido contemplado posteriormente com a bolsa do prêmio do Fundo de Cultura do Estado do Espírito Santo, o jovem se deparou, inicialmente, com o estado de abandono, degradação das construções históricas, caos urbano e conflitos sociais, que lhe sugeriram a realidade de tantas outras cidades brasileiras. Mas lhe causaram mais impacto a grandiosidade dos rios, as cores e a exuberância da luz e da vegetação local, por atuarem como forças desmobilizadoras de conceitos, hábitos e visões preconcebidos.

Partindo do registro fotográfico de imagens capturadas durante essa experiência imersiva na Amazônia, mas também recorrendo a leituras, reflexões e trocas, o artista articulou a tessitura criativa de caminhos possíveis. Trata-se de uma instalação que perpassa diferentes dimensões que se complementam – ela reflete sobre a vida, a construção de afeto e de alteridade; mas também aponta para a circularidade do tempo. No entanto, não é ao tempo linear e cronológico posto pela ocidentalização do mundo que se refere o artista. Ele fala de um tempo biológico ou corporal, guindado pelo aqui e agora, ou seja, pelos fenômenos da natureza, como ocorreu com nossos ancestrais. É este tempo que continua orientando a vida cotidiana de muitas comunidades que dependem da pesca ou da agricultura para sobreviver: fases da lua, posição das estrelas, movimento das marés, direção dos ventos, períodos de chuva ou de seca, dia e noite…

caminhos possíveis compõe-se de um conjunto de fotografias digitais impressas com pigmento mineral, sobre grandes suportes de papel fotográfico: um tríptico, denominado A Queda do Céu, e o políptico em forma de cruz, abridor de caminhos e a suspensão do tempo, além de mudas de aroeira plantadas em vasos, posicionados nos cantos da galeria. Os trabalhos fazem referência à ruptura com o tempo cronológico e à energia cíclica, que rege a natureza e as travessias da vida. Fazem menção, ainda, à figura de Exu, orixá cultuado pelas religiões de matriz africana e responsável, segundo Segatto, “por conectar o mundo material ao mundo espiritual, além de ser considerado o guardião dos caminhos”.

Para teóricos como Philippe Dubois, uma imagem digital não se caracteriza mais como potência “indicial” ou “rastro”, uma vez que, diferentemente da fotografia analógica, não resulta, necessariamente, de algo que se colocou diante da objetiva em um dado momento. As câmeras digitais, smartphones e celulares tornaram as imagens pura ficção ou invenção. Resultam de programas, que permitem muito pouca interferência e mediação do sujeito que manipula o aparelho, e que permitem incluir nelas coisas e lugares nos quais nunca estivemos. Além disso, a imagética gerada por tais aparelhos não se destina mais a circular impressa em papel, para rememorar e perpetuar a memória de alguém querido ou um acontecimento que não queremos esquecer. As fotografias digitais são imagens efêmeras, nascem para circular no fluxo das redes sociais e para serem armazenadas na memória da câmera ou do computador por curto tempo, pois logo serão substituídas por novas imagens. Mas não é nessa esteira que transitam as fotografias sobre a pesca produzidas por Rafael Segatto, que subvertem ou põem em xeque tais prognósticos e preceitos teóricos. Até porque o artista continua se deslocando com a câmera, para flagrar aspectos do mundo que lhe interessam e com os quais interage. Também não se pode ignorar que tais imagens acabam se submetendo a determinadas trucagens ou interferências feitas no ato de edição, que passam pela saturação da cor, alteração de enquadramentos ou cortes.

O artista submete, assim, tal imagética a seu olhar sensível, elegendo a iconografia que melhor se ajusta ao conceito por ele formulado e ao contexto em que visa inseri-la, o que permite identificar o seu propósito de dialogar com a pintura. Isso se desvela na potência e intensidade luminosa do azul, geradas pela impressão das fotografias mediante a utilização de pigmento mineral. Essa cor reverbera por todo o espaço, tornando rio e céu um todo inseparável. O azul é atravessado apenas por uma forma pontiaguda vermelha, que corta o espaço como um raio, como se o artista pintasse com a luz. A essas características soma-se o resultado da decisão de ampliar e imprimir as fotos em dimensões que lembram as das telas pictóricas. Mas é ao dispor as imagens em forma de cruz que o artista destaca a encruzilhada desses dois caminhos, inserindo ali uma composição que se diferencia das demais pela cor e pelos elementos nela expressos: um conjunto de peixes, que sugere uma natureza morta. Isso torna a imagem o ponto focal, ao fazer convergir para ela o olhar do espectador, como no punctum de Roland Barthes. Mas essa composição não deixa de traduzir a ideia de oferenda a Exu, “senhor da fertilidade e do dinamismo, o criador do mundo e dos homens, o guardião da ordem e da desordem” (Vagner da Silva, 2013). A referência a Exu também é expressa pelos vasos de aroeira, planta que tem o poder de limpar e proteger o espaço expositivo e o caminho de quem por ele transita. Na tessitura de caminhos possíveis enredam-se, portanto, experiências, vivências, pensamentos e memórias afetivas e culturais do autor.                                                                                                                                                                               

Almerinda Lopes