AMAS – Fisionomias e Desmembramentos

O leite da ama queima a pele da negra

A Negra

Tarsila do Amaral, 1923, 100 x 81,3 cm, óleo sobre tela, Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo.

 AMAS – Fisionomias e Desmembramentos

Luciano Feijão, 2018, vários formatos, nanquim sobre papel, Galeria Homero Massena.

A Negra – evocação da infância de Tarsila, das amas de leite, do ambiente ainda impregnado pela dinâmica escravocrata que tanto compareceu nas grandes fazendas onde vivia. Pintura que sustenta o Modernismo brasileiro a partir do “gosto pelo primitivo”. Sustenta ainda a ideia de uma iconografia nacional que, de maneira alegórica, contribuiu para circunscrever mulheres negras na construção ininterrupta de uma subjetividade racista secular.

AMAS – as formas que se racham para abrir um ponto de questionamento na concretude das “provas cabais”, deixando escorrer do desenho o fluxo imaterial das práticas históricas, que remetem ao chão mesmo das tensões e reviravoltas, à luta de forças, aos modos, por vezes incongruentes, sobre como a experiência da arte se atualiza. Aqui a figura da ama de leite insurge contra a racionalidade modernista, para se tornar uma proposição política insana. O leite que se pretende beber agora precisa do esforço dos seus filhos para sugá-lo, para que se reestabeleçam novas tentativas de criar corpos impetuosos, contrários a essa intangibilidade que nos tornamos depois da escravidão brasileira, a que produziu a subjetividade mais cruel, sutil e duradoura da história.

Fisionomia versus desmembramento.

A Negra – que neste contexto é fisionomia – encontra-se numa via negativa, entrelaçada a uma objetivação e achatamento do mundo, produzindo certezas e estereótipos característicos de uma dominação essencial.

Se pensarmos que A Negra não foi produzida para proporcionar a concepção inequívoca de uma comunidade que exige ser vista como parte constitutiva de mundo; se não existe espaço para que esta pintura dispare a própria visibilidade e consciência negra como uma experiência de luta na esfera pública, cabendo, portanto, a esta mesma comunidade, servir unicamente para preencher o papel de tipo etnológico e de produção de valor capitalista, então não há outra opção em AMAS que não seja se apropriar da pintura de Tarsila para fazer deste objeto a expressão de sua própria negação.

AMAS – que neste contexto é desmembramento – tenta manter o passado ativo no presente através da quebra da moldura. Moldura é fechamento. No desmembramento, os desenhos não estão condicionados a características fisionômicas, que trazem um sentido único à imagem proposta, mas propicia a capacidade de atribuir uma carga discursiva desindexada de uma certeza objetiva, ampliando, dessa forma, os efeitos reflexivos e críticos que estas imagens podem proporcionar.

A visão confortável do passado deve ser substituída pela visão política do presente. Na demarcação conflituosa dos espaços, a aposta no desenho – enquanto campo de atuação – talvez seja a opção pragmática de fazer com que os desenhados se convertam, em alguma instância, em documentos com validez política.

AMAS apropria-se de A Negra, trabalhando contra a hegemonia imaculada do objeto/imagem/propriedade. AMAS exige a presença de Tarsila, a convoca através de sua pintura, problematiza sua monumentalidade diante de corpos negros deformados. A Negra depara-se ao discurso antagônico de AMAS, se apresentando na atualidade do sistema de desigualdades no Brasil para desmitificar a si própria.

Para todas as amas, do passado e do presente; que vosso leite, antes propriedade de homens e mulheres brancas, seja hoje o combustível vivo de sua luta. Que o vínculo maternal, antes fictício, criado como artifício para que fosse suportável amamentar o filho branco de seu algoz, abra espaço para um amor não ficcional que possa fecundar novamente a criança que a usurparam, nascendo assim um novo corpo sensível aos atravessamentos da vida, que, na incidência sobre este plano comum, seja capaz de produzir mudanças significativas.

Luciano Feijão

 

Serviço

Exposição Tecitura: coleção José Ronaldo da Rocha Copolillo & Família
Abertura: 13 de Junho às 19h
Visitação: 14 de Junho de 2018 a 08 de Setembro de 2018

Entrada Gratuita

Classificação Indicativa: 12 anos

Local: Galeria Homero Massena
Horário de funcionamento: Segunda a sexta das 09h às 18h e aos sábados das 13 às 17h.
Endereço: Rua Pedro Palácios, 99 – Cidade Alta – Vitória – ES

Site/facebook:

https://www.facebook.com/ghmassena

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